Olho para os miúdos que entram na escola todos os anos. E olho também para o que se passa cá fora, nas ruas, nas redes sociais, nos grupos onde estou com eles, nos movimentos, nas conversas que têm entre eles. E há ali qualquer coisa diferente…
Esta geração nova preocupa-se com coisas que a minha, confesso, demorou décadas a perceber que eram urgentes. Alterações climáticas?
Não é teoria, é o futuro deles que está em risco.
Maus tratos a animais?
Não é “coisa de sensíveis”, é uma linha vermelha.
Escassez de alimentos e péssimos alimentos processados?
Perceberam que a comida não é só combustível, é saúde, é ética, é resistência a um sistema que os quer doentes e dependentes.
Eles não querem saber de logótipos bonitos se a marca por trás for uma treta.Não querem saber de storytelling emocional se a cadeia de abastecimento for um poço de exploração. Têm um radar apurado para o falso. E isso, para quem vive do design como eu, é bastante revitalizante.
Porque um miúdo que pergunta se aquele site usa servidores verdes, ou se aquela marca paga o justo aos fornecedores, ou se aquela embalagem é mesmo reciclável, esse miúdo está a obrigar-nos a ser melhores. Não por boas intenções, mas por pressão.
Ainda são poucos, mas é um movimento em curso.
A esperança, para mim, não está na IA que aí vem. Também não está nos políticos, isso é perda de tempo.
Está neles.
Está nos que recusam a narrativa do “é assim porque sim”.
Está nos que fazem perguntas incómodas, que boicotam com a carteira, que partilham informação em vez de desinformação.
Nos que tratam o outro com respeito e empatia, seja humano, animal ou planta.
Também vejo marcas pequenas, as que não têm orçamento para departamentos de marketing inflacionados, a fazerem exatamente o oposto das grandes empresas.
Respondem no Instagram como se fossem uma loja de bairro. Pedem desculpa quando erram. Ligam de volta quando dizem que vão ligar. Não é estratégia, é vergonha na cara. E é isso que esta geração valoriza. Autenticidade. Imperfeição assumida. Transparência.
É pouca, essa esperança?
Talvez.
É frágil e lenta? Sim. Mas é a única que irá funcionar. E enquanto houver jovens a perguntar “porquê” em vez de aceitar “porque sim”, a fazer perguntas às quais os CEOs não querem responder e a escolher marcas que merecem o dinheiro deles, ainda há alguma esperança no futuro.