Dieter-Rams

Dieter Rams. Menos, mas melhor!

Dieter Rams nasceu em 1932, em Wiesbaden. O avô era carpinteiro.

Começou por arquitetura e decoração de interiores, em 1947. Parou pouco depois para aprender carpintaria, como deve ser, com as mãos. Voltou à escola, saiu com honras em 1953 e foi trabalhar para um arquiteto em Frankfurt. Em 1955, aos 23 anos, entrou na Braun. Os irmãos Braun contrataram-no para modernizar os interiores da empresa, que lançava produtos elétricos revolucionários. Em 1961 era Diretor de Design. Ficou até 1995. Trinta e quatro anos na mesma cadeira. Saiu da empresa em 1997.

A Braun que o recebeu

A Braun já existia. Fundou-a Max Braun em 1921. Quando ele morreu, em 1951, os filhos Artur e Erwin ficaram com a empresa e perceberam que o design podia ser o que os distinguia dos concorrentes. Erwin foi buscar conselho à Escola Superior de Design de Ulm, a HfG, onde davam aulas Hans Gugelot e Otl Aicher, e juntou outros consultores, como o designer Wilhelm Wagenfeld. Com Fritz Eichler, que vinha do teatro, Artur desenhou em 1955 o rádio SK 1. Cabia num parapeito de janela, numa época em que os rádios eram um festival de enfeites. A grelha de pontos do altifalante repetir-se-ia em produtos Braun de todas as categorias.

Rams entrou neste caldo. Ficou sob a asa de Eichler, de Gugelot e de Aicher. Anos depois, disse que o seu trabalho e o da sua equipa seriam impensáveis sem o caminho que eles abriram. Sobre Eichler, escreveu que era um designer de processos.

Convém dizer já que a Braun era uma equipa. Muitos objetos têm dois ou três nomes nos créditos. Jony Ive resumiu o resultado: centenas de objetos bem desenhados e bem fabricados, em grande volume.

O que ele desenhou

Agora os objetos. Por ordem cronológica. Em vários casos, o que hoje parece normal era estranho na altura.

Braun SK4, 1956

Rádio e gira-discos na mesma caixa branca de metal, com uma tampa transparente por cima, que deixava ver uns comandos cinzentos e simples. A tampa de acrílico foi acrescentada por Rams. Em 1956, um pormenor tão inesperado que o aparelho ficou conhecido como o “caixão da Branca de Neve”. Até ali, os aparelhos de casa faziam de conta que eram móveis. O SK4 deixou de fingir.

Foto: Braun SK4, 1956. Hans Gugelot e Dieter Rams.

Braun T3, 1958

O primeiro rádio de bolso a transístores da Braun, feito com a HfG Ulm. Mede cerca de 15 por 8 centímetros. Compara-se muito o T3 ao iPod. Leio essa comparação com cautela. O que os dois partilham é terem apenas os elementos de que precisam. Nada mais.

Foto: Braun T3, 1958. Dieter Rams e a HfG Ulm. Coleção do MoMA. Á direita o iPod de 2001.

Braun TP1, 1959

Gira-discos portátil. O disco toca por baixo e o braço sai de uma ranhura no corpo do aparelho. Pouco convencional é dizer pouco.

Braun TP1, 1959.

Vitsœ 606 Universal Shelving System, 1960

A ideia aparece num esboço de 1955, na parede do fundo dos novos interiores da Braun. Rams tinha 23 anos. Em 1957 perguntou ao Erwin Braun se podia desenhar mobiliário para outra empresa. A resposta veio logo. Sim, porque ia ajudar a vender rádios. Sensato.

O sistema saiu em 1960, para montar na parede, e foi pensado para acolher o Braun Audio 1. Ainda está à venda. Sessenta e seis anos depois. Em 2018, um tribunal alemão descreveu a prateleira como extremamente reduzida, clara e calma, e o acórdão ficou conhecido como o “acórdão lírico”. Em 2023, o Supremo Tribunal de Cassação italiano reconheceu o 606 como obra de arte protegida por direitos de autor. Um juiz a escrever poesia sobre uma prateleira. Acho isto extraordinário.

https://www.vitsoe.com/us

606 Universal Shelving System, 1960. Dieter Rams para a Vitsœ. Coleção permanente do MoMA.

Vitsœ 620 Chair Programme, 1962

Um ano antes, em 1961, Rams tinha desenhado a poltrona 601. O objetivo era libertar espaço nas casas modernas, quase sempre pequenas. Em 1965, o governo alemão reconheceu o programa como obra de valor estético excecional e passou a protegê-lo por direitos de autor. A Vitsœ continua a produzi-lo.

Foto: 620 Chair Programme, 1962. Dieter Rams para a Vitsœ. Coleção do Victoria & Albert Museum.

Braun T1000, 1963

Um recetor para apanhar emissões de qualquer parte do mundo. A eletrónica era complexa, por isso o manual tem lugar próprio: desliza para dentro da tampa da frente, que ao abrir revela os mostradores. Tem três antenas e um puxador retrátil. Vendia-se ao consumidor e parece equipamento militar. Diz-se que foi usado em embaixadas. Como quase tudo na Braun, não era barato.

Foto: Braun T1000 World Receiver, 1963.

Braun T2, 1968

Um isqueiro cilíndrico.
Um administrador da Braun pediu-lhe o design. Rams respondeu que só aceitava se desenhassem também a tecnologia que ia lá dentro.
As versões seguintes chegaram a usar ignição magnética, como as das motas. Diz muito sobre o método. Começar por fora dá uma casca bonita. Ele preferia começar por dentro.

Foto: Braun T2, 1968.

Braun ET66, 1987

A calculadora que já conheces do iOS 3. A Apple imitou-lhe a aparência: caixa retangular, botões redondos e convexos. Desenhada com Dietrich Lubs, trinta anos depois do SK4 e com a mesma cabeça. Continua a haver reedições à venda.

A lista não acaba aqui. O processador de alimentos KM3, de 1957, com Gerd Alfred Müller. A máquina de café KF20, de 1972, saída da equipa de Rams, com o nome de Florian Seiffert nos créditos. O espremedor de citrinos MPZ22, do mesmo ano, apontado como um dos marcos da Braun.
Os projetores de diapositivos D45 e D46.
E relógios, balanças, ventoinhas, acessórios de secretária. Rams desenhou para a casa inteira.

Foto: Braun ET 66, 1987. Dieter Rams e Dietrich Lubs. Coleção do V&A.

O método

Rams sempre disse que prefere melhorar a inventar. Falou ao Domus, em 2018, do que muitas vezes se vende como novidade e não passa de forma aplicada por cima. Prefere a expressão “re-engineering”. Começa-se por dentro e trabalha-se para fora. É o isqueiro T 2 outra vez, contado por ele. No filme de Hustwit, diz também que não se percebe bom design sem perceber pessoas. Tudo isto cabe na frase que ficou: Weniger, aber besser. Menos, mas melhor.

Uma interface, antes de haver interfaces

Dou aulas de UI/UX e este é o ponto que me prende. Em 1959, Rams já tinha criado um sistema completo de som, com gira-discos, rádio e amplificador, que o Core77 diz estar pelo menos vinte anos à frente do seu tempo. Nos sistemas seguintes, os comandos foram migrando para a superfície do gira-discos. A frente ficou limpa. Até os parafusos desapareceram. Isto é hierarquia visual. É decidir o que o utilizador vê primeiro e o que nunca precisa de ver.

O curador Grégory Mesrié destaca o sistema TS 45, TG 60 e L 450, de 1962. Numa altura em que o som de casa imitava mobília, Rams puxou para o lado industrial. Nos botões, nas cores e até na posição da ventilação, cada escolha tem razão de ser. É o princípio 8 a funcionar.

A outra vida: a Vitsœ

Rams teve duas carreiras em paralelo. A Vitsœ nasceu em 1959, em Frankfurt, pela mão do comerciante dinamarquês Niels Vitsœ e de Otto Zapf, para produzir o mobiliário que Rams desenhava. Hoje é a única licenciada mundial desses desenhos e vende para mais de 90 países. O diretor britânico, Mark Adams, trabalha com Rams há mais de quarenta anos.

Rams estava convencido de que o melhor design só sai de equipas dentro das empresas. Sou freelancer desde 2011 e leio a frase com sentido de humor.

O legado

O legado ainda está no telemóvel. O ecrã de reprodução da app Podcasts imita o gravador de fita de rolo TG60, de 1965. No documentário Objectified (Gary Hustwit, 2009), o próprio Rams diz que a Apple é das poucas empresas que desenham produtos de acordo com os seus princípios.
Em 2010, contou ao Die Zeit que o Jony Ive lhe enviou um iPhone, com uma carta a agradecer a inspiração. Ive escreveu ainda o prefácio de uma monografia sobre Rams, em 2011. Naoto Fukasawa e Jasper Morrison também citam a sua influência.

Depois de Rams, a Braun teve outros diretores de design. Peter Schneider, contratado por ele e diretor de 1995 a 2008, tentou afastar-se do estilo apertado que Rams definira. A própria Braun chama-lhe uma fase experimental.

As distinções acompanham. A Cruz de Comendador da Ordem do Mérito alemã, em 2002. A medalha de carreira do London Design Festival, em 2013. O Compasso d’Oro de carreira, em 2014. A exposição “Less and More” passou por Osaka, Tóquio, Seul, Londres e São Francisco entre 2008 e 2011. Em 2018, a galeria Espace 24b, em Paris, mostrou cerca de 70 peças na primeira retrospetiva francesa, com o título “Less but Better”. Os curadores usaram o 606 para expor os outros desenhos. Muitos dos objetos da Braun estão em coleções de museus por todo o mundo.

A casa, a fundação e o arrependimento

Em 1971, Rams desenhou com o arquiteto Rudolf Kramer a casa onde vive, em Kronberg. Está mobilada com peças da Vitsœ e classificada como monumento. Em 1992, com a mulher, a fotógrafa Ingeborg Rams, criou a Fundação Rams, que protege a casa e defende as ideias deles: o design deve servir as pessoas, poupar recursos e resistir à moda.

Em 2018, Gary Hustwit estreou “Rams”, um documentário com música original de Brian Eno. O que mais se cita do filme é o arrependimento. Rams disse que, se tivesse de recomeçar, não quereria ser designer. Acha que há demasiados produtos desnecessários no mundo. Ouve-se isto de alguém que desenhou centenas de objetos. Convém ouvir.

Já vem de longe. Nos anos 70, Rams defendia que a obsolescência programada era um crime de design. Em 1976, em Nova Iorque, falou da escassez irreversível de recursos naturais. A Comissão Brundtland só chegou sete anos depois. Perguntou-se se o seu trabalho era bom design. A resposta são os dez princípios.

Os dez princípios

O bom design:

  1. É inovador. A tecnologia abre portas novas todos os dias, e o design imaginativo acompanha-a. Nunca pode ser um fim em si mesmo.

  2. Torna o produto útil. Compra-se para usar. Tem de cumprir a função, mas também o critério psicológico e estético. E deixar de fora tudo o que atrapalha.

  3. É estético. Usa-se todos os dias e mexe com o bem-estar de quem usa. Só o que está bem executado pode ser bonito.

  4. Ajuda a compreender o produto. Mostra a estrutura, explica a função através da intuição de quem usa. No melhor dos casos, explica-se sozinho.

  5. É discreto. Um produto serve um propósito, como uma ferramenta. Decoração e obra de arte ficam de fora. O design deve ser neutro e contido, para deixar espaço a quem o usa.

  6. É honesto. Não faz o produto parecer mais inovador, potente ou valioso do que é. Não promete o que não vai cumprir.

  7. É duradouro. Foge da moda, por isso não envelhece. Dura anos, mesmo numa sociedade descartável.

  8. É rigoroso até ao último detalhe. Nada é arbitrário ou deixado ao acaso. Cuidado e precisão no processo mostram respeito por quem vai usar.

  9. Respeita o ambiente. Poupa recursos e reduz a poluição, física e visual, ao longo de todo o ciclo de vida do produto.

  10. É o mínimo de design possível. Menos, mas melhor. Concentra-se no essencial e não carrega o produto de detalhes que não servem. Pureza e simplicidade.

Há três que me interessam mais. O 5, o 6 e o 7.

Fiz publicidade durante anos e ainda faço e sei quantas campanhas sobreviveriam ao princípio 6. Poucas. E o 5? Abre uma app qualquer. Conta os pop-ups antes de conseguires fazer o que lá foste fazer. O princípio 5 continua à espera…

O 7 também. O 606 tem sessenta e seis anos e ainda se compra. Quantos redesigns de sites chegam aos três?

O 10 é o mais citado e o menos cumprido. Dá mais trabalho tirar do que pôr. Qualquer pessoa que tenha desenhado um ecrã sabe isto.

Ensino UI/UX desde 2013 e ainda não encontrei uma checklist melhor para começar uma conversa sobre design. Dez linhas, sem palavras caras, sem framework com nome inglês.

Fica o desafio. Pega num projeto teu. Passa-o pelos dez princípios. Conta quantos aguenta.