As redes sociais não nos ligaram. Desligaram-nos uns dos outros.

Há qualquer coisa profundamente irónica em escrever este texto num computador, sabendo que a maior parte de quem o vai ler o vai abrir a partir de uma notificação, entre um scroll e outro, com metade da atenção já a fugir para a app seguinte. Não escrevo isto de fora do problema. Escrevo de dentro dele, como todos nós.

Vou ser direto: as redes sociais não são “mais uma ferramenta de comunicação”.

E uma das consequências mais preocupantes é precisamente a relação entre redes sociais e solidão.

São, hoje, o maior fator isolado de deterioração da forma como humanos comunicam entre si e há uma pilha considerável de investigação científica, disponível há anos, que o confirma. Não é uma opinião contra a tecnologia. É uma opinião fundamentada em décadas de dados que a indústria conheceu primeiro do que nós e simplesmente escolheu ignorar.

O produto não é a app. O produto somos nós.

Comecemos pelo mecanismo, porque sem perceber o mecanismo, tudo o resto parece coincidência.

As plataformas não foram desenhadas para nos ligar.

Foram desenhadas para nos reter.

Nir Eyal descreveu esse ciclo no livro Hooked: gatilho, ação, recompensa variável, investimento.
É o mesmo esquema comportamental de uma slot machine e não é por acaso. O gatilho é exactamente o mesmo. A recompensa imprevisível (vai haver um like? um comentário? algo chocante no feed seguinte?), gera picos de dopamina mais persistentes do que uma recompensa previsível.

Um estudo recente sobre “dopamine-scrolling” descreve-o já como um problema de saúde pública, não como uma questão de fraqueza individual porque a maioria dos adolescentes reporta estar “quase constantemente online”, criando um ambiente onde a atenção está cada vez mais fragmentada.

E os números sobre o que isso faz à nossa capacidade de concentração são, para ser honesto, mais assustadores do que eu esperava antes de pesquisar para este texto.

A investigadora Gloria Mark, que estuda atenção há décadas, documentou que o tempo médio de atenção num ecrã caiu de 2,5 minutos em 2004 para 47 segundos em 2020.

Não é uma opinião de alarmista de café. É medição direta, replicada ao longo de anos.

E o mecanismo neurológico por trás disto está cada vez mais bem descrito: cada notificação ou like entrega uma recompensa imprevisível, que faz a área tegmental ventral (1) libertar dopamina não quando a recompensa chega, mas em antecipação a ela, condicionando o cérebro a verificar compulsivamente se há novidades.

Isto interessa-me particularmente como professor. Ensino UI/UX há mais de uma década.
Sei desenhar para envolver.
E sei, porque também estudei o oposto, que existe uma diferença ética enorme entre desenhar algo que serve o utilizador e desenhar algo que o explora.

As redes sociais escolheram, sistematicamente, a segunda opção.

O caso mais bem documentado: adolescentes.

o-caso-mais-bem-documentado-adolescentes.

Se há uma área onde a evidência deixou de ser “ainda inconclusiva” para passar a ser “esmagadora”, é a saúde mental de adolescentes.

Jonathan Haidt, psicólogo social da NYU, tornou-se a voz mais visível desta discussão com o livro The Anxious Generation (2024).

E aqui há um ponto que quero deixar claro, porque a integridade intelectual exige-o: nem todos os cientistas concordam com ele.
Investigadoras como Amy Orben mantêm que a evidência de causalidade direta ainda tem zonas cinzentas. É uma discussão científica real, não resolvida a 100%. Mas mesmo assim, Haidt afirma estar 99,9% confiante de que, como produto de consumo hoje, as redes sociais estão a prejudicar crianças e adolescentes, com base em sete linhas de evidência diferentes. Correlacionais, longitudinais, experimentais e dados internos das próprias empresas.

E os números concretos que ele traz para a mesa são difíceis de descartar como coincidência: as taxas de depressão e ansiedade em jovens dos 12 aos 17 anos nos EUA quase duplicaram entre 2010 e 2019, e a taxa de suicídio subiu 48% entre os 10 e os 19 anos.
131% entre raparigas dos 10 aos 14.
Padrões semelhantes foram observados no Canadá, Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália. Não é um fenómeno americano isolado.

O que mais me perturba, sinceramente, não é a estatística.

É saber que a própria Meta sabia disto internamente antes de qualquer jornalista o publicar. Os documentos trazidos a público pela ex-funcionária Frances Haugen em 2021 mostraram que 32% das adolescentes que já se sentiam mal em relação ao próprio corpo relataram sentir-se ainda pior depois de usar o Instagram, e 17% relataram um agravamento de perturbações alimentares.

Os estudos eram da própria empresa.

Não foram forçados a admitir; escolheram guardá-los na gaveta. Há algo particularmente cínico numa empresa que financia a própria investigação sobre os danos que causa, obtém os resultados, e decide que o crescimento e a receita valem mais do que agir sobre o que se descobriu.

A desinformação não é um bug. É o comportamento esperado do sistema.

a-desinformacao-nao-e-um-bug

Mudemos de escala: da mente individual para a esfera pública, onde talvez o dano seja ainda mais estrutural, porque corrói a própria possibilidade de conversação coletiva.

Em 2018, um estudo do MIT, com Sinan Aral, Deb Roy e Soroush Vosoughi, analisou todas as notícias verificadas como verdadeiras ou falsas que circularam no Twitter entre 2006 e 2017. 126 mil histórias, cerca de 3 milhões de contas. A conclusão, publicada na revista Science, é uma das frases mais citadas em investigação sobre redes sociais dos últimos anos: a falsidade difunde-se de forma significativamente mais longínqua, mais rápida, mais profunda e mais ampla do que a verdade, em todas as categorias de informação, e em muitos casos por uma ordem de grandeza.

Em termos concretos: notícias falsas têm 70% mais probabilidade de serem retweetadas do que a verdade, e chegam a 1.500 pessoas cerca de seis vezes mais depressa.

E o detalhe que mais desmonta a narrativa fácil de “são só os bots”: foram os próprios investigadores a verificar que os utilizadores que espalhavam notícias falsas tinham significativamente menos seguidores, seguiam menos pessoas, eram menos ativos, menos frequentemente verificados e estavam na plataforma há menos tempo do que quem partilhava informação verdadeira.

Ou seja: somos nós. É gente comum, a decidir partilhar aquilo que é surpreendente, porque a novidade é mais partilhável e a mentira, sendo desenhada ou selecionada para chocar, é quase sempre mais impactante do que o facto banal.

Vale a pena registar que este resultado foi, mais tarde, contestado por outro estudo (Juul e Ugander, 2021), que argumentou que parte do efeito se devia a um viés na forma como as notícias falsas tinham sido verificadas. Aral respondeu publicamente a essa crítica, defendendo a robustez do resultado original.

Não escondo esta controvérsia porque a considero prova, não fraqueza, do que devia ser sempre feito: mostrar o debate, não só a conclusão que mais convém ao argumento.

De qualquer forma, mesmo os críticos mais cépticos não discordam do ponto estrutural: os algoritmos de recomendação otimizam para envolver, e envolvimento correlaciona-se com emoção intensa, indignação, medo, tribalismo. Um sistema desenhado para maximizar tempo de ecrã vai, estruturalmente, privilegiar o conteúdo mais polarizador. Não é conspiração. É otimização matemática a fazer exatamente aquilo para que foi construída.

Sozinhos, mas ligados a toda a hora.

Aqui está o paradoxo que, para mim, resume tudo: nunca estivemos tão “conectados” e nunca nos sentimos tão sós.

O Surgeon General dos Estados Unidos declarou, em 2023, a solidão uma crise de saúde pública, comparando o seu impacto na saúde a fumar 15 cigarros por dia. E os dados que fundamentam essa declaração não são vagos: entre 2003 e 2020, o tempo de convívio social com amigos caiu 20 horas por mês, e o convívio com outras pessoas em geral caiu 10 horas por mês.

Um estudo mais recente da Oregon State University, com mais de 1.500 adultos entre os 30 e os 70 anos, encontrou que quem está no quartil superior de frequência de uso de redes sociais tem mais do que o dobro da probabilidade de sentir solidão. E note-se: não foi só nos jovens. Foi transversal às idades.

Porque é que isto acontece, se a promessa das redes sociais era precisamente ligar-nos? Porque há uma diferença enorme entre estar “networked” e estar realmente ligado. Dar um like, mandar um emoji, reagir a um story, tudo isso simula proximidade sem entregar o que a proximidade real dá: atenção sustentada, vulnerabilidade partilhada, presença. É comunicação de baixa densidade a substituir comunicação de alta densidade. E o corpo não se engana: continua a sentir a falta do que realmente precisa, mesmo que o ecrã diga que estamos “em contacto” com duzentas pessoas.

O que isto faz à conversa entre humanos, hoje.

Junte estas três peças: desenho viciante, deterioração da atenção, e um algoritmo que recompensa polarização e chega-se ao problema que, para mim, é o mais grave de todos em 2026: já não sabemos comunicar.

Discutir exige tempo, exige tolerar desconforto, exige ouvir alguém até ao fim antes de responder. Nenhuma destas três coisas é compatível com uma interface desenhada para scroll infinito e recompensa a cada sete segundos.

Formamos opiniões a partir de excertos de quinze segundos, tiradas de contexto, escolhidas por um algoritmo que não tem qualquer interesse em que cheguemos à verdade. Tem interesse em que fiquemos mais um minuto no ecrã.

E depois estranhamos que a conversa política esteja mais tribal, que as famílias discutam mais em grupos de WhatsApp do que à mesa de jantar, que ninguém pareça capaz de mudar de opinião perante um argumento razoável.

Não é coincidência.

É o resultado previsível de vinte anos de treino coletivo num ambiente que penaliza a nuance e premeia a indignação instantânea.

Não é sobre demonizar a tecnologia. É sobre nomear o que ela é.

Não escrevo isto como alguém contra a internet ou contra a comunicação digital.

Seria absurdo, dada a minha própria história profissional, desde a Pixel & Tintas em 1990 até hoje, sempre a trabalhar com ferramentas digitais.

Mas como professor, dando apoio a alunos em estágio durante 3 meses no final do 3º ano, este tema interessa-me por causa do relatório recorrente que a maioria das empresas me entrega no final do estágio. A apreciação mais negativa, transversal a 90% dos jovens, são as suas dificuldades sociais.
Não as suas dificuldades técnicas, mas as dificuldades em relacionarem-se com as hierarquias da empresa e com os colegas. A falta de iniciativa. Problemas de entendimento de briefings. Dificuldade na análise e interpretação de informação. Falta de foco e dificuldades de concentração.

O problema nunca foi a tecnologia em si. Foi um modelo de negócio específico, publicidade paga com atenção, que tornou lucrativo manter-nos ansiosos, comparando-nos, indignados e sozinhos, ao mesmo tempo que nos vende a ilusão de estarmos mais ligados do que nunca.
A investigação está feita.
Está publicada em revistas como Science, Nature, JAMA, vem de instituições como o MIT, a NYU, a Universidade de Harvard, e, o que é mais condenável, vem também de dentro das próprias empresas, que a esconderam durante anos.
Não faltam evidências.
Falta, sim, vontade coletiva de admitir que o problema não é “os jovens de hoje” ou “a falta de educação” ou “falta de motivação”. O problema é um sistema desenhado, com intenção e sofisticação técnica de topo, para lucrar com a nossa incapacidade de nos desligarmos e de nos ouvirmos uns aos outros.

(1) A Área Tegumentar Ventral (ATV) é uma pequena região no centro do mesencéfalo. Ela é o principal centro produtor de dopamina do cérebro e o ponto de partida do circuito de recompensa, atuando como o motor da nossa motivação, prazer e aprendizagem associativa. Localizada no tronco encefálico, a ATV envia sinais de dopamina para várias áreas do cérebro.


Fontes principais usadas neste post:

  • Jonathan Haidt, The Anxious Generation (Penguin, 2024) e Haidt & Rausch, “Mountains of Evidence” (After Babel, 2024)
  • Vosoughi, Roy & Aral, “The spread of true and false news online”, Science, 2018 (MIT)
  • U.S. Surgeon General’s Advisory, “Our Epidemic of Loneliness and Isolation”, 2023
  • Documentos internos da Meta divulgados por Frances Haugen (“Facebook Files”, Wall Street Journal, 2021)
  • Gloria Mark, investigação sobre atenção, e literatura recente sobre “dopamine-scrolling” (2025)
  • Estudo da Oregon State University sobre uso de redes sociais e solidão em adultos (2025)